- Seu rosto, - tocou-me - não parece o mesmo.
- Invadiram minha face na madrugada...
- E deixaram-na assim, corrompida?
Apenas disse sim com minha cabeça;
- Disseram pra mim - continuei - que os detalhes e as cicatrizes
vão se desmanchar com o tempo e em breve terei de volta o mesmo
rosto de antes...antes da invasão das máculas, entende?
- Compreendo vagamente.
- As coisas...não acontecem assim tão rápido. Ontem, eu me
pensava sozinho, solidão em meus fractais, hoje condeno o remorso
de pensar assim; encontrei em mim um halo de esperança...
- E eu digo que toda catástrofe um mártir revela...
Sorri, eliminando a ponta da exígua tristeza que me velava. Os
sons eram arrulhados por cantigas de ninar, provindas do berçário
não tão distante...
- Ouve a música, - dizia eu - a distância é uma proximidade
avessa, não concorda?
- Concordo e manifesto. Vejo a distância como um simples patamar:
todos sabem que existe, mas ninguém admira o concreto.
- Bela explicação... - retruquei - toda distãncia é perfeitamente
invisível e ao mesmo tempo tátil em desconsideração.
- Sua natureza etérea nos faz duvidar...
- Seu sorriso...também parece afetado.
- Não tanto quanto o seu...parece que uma áurea divina repôs algo
que faltava...acho que deu nome ao seu sorriso...
- Belas palavras, meu amigo. E hoje tem aprendido como ninguém a
beleza das coisas doces.
- Mas o seu rosto, - voltou a tocar-me - que permaneceu tanto
tempo avesso ao mundo, parece regozijar-se...
- É assim mesmo...está chamando atenção dos arredores. Não culpo
meu rosto em manifestar sua alegria; ele vibra o que desejo
vibrar, e tonifica as expressões de acordo com minha alma...quem
seria eu pra burlar toda esta história...
- Um alguém feliz o suficiente pra negar a distãncia...